A um dia do Natal, o Centro é monocórdico: a música mais executada naquele pedaço de chão é a versão de Minha mulher não deixa não (“Vou não, quero não, posso não”) gravada pela banda Aviões do Forró, que despeja em dezembro seu oitavo disco. O Centro também usa o mesmo par de óculos esporte: um objeto cuja armação é colorida, imitação do Ray Ban bastante comum nas noites da Praça Portugal. De passagem pelo Centro, o pedreiro Carlos Eduardo Dias Viana, 26, comprou de presente para o filho de oito anos um som portátil com entrada USB e um mp3 acoplado abarrotado de música. Preço do pacote: R$ 65. “Ele vai gostar, garanto. Sabe como é menino do Interior...”, confia o trairiense.No ranking do Centro estão o som portátil, o estourado CD novo do Aviões e, finalmente, o óculos descolado, que, segundo Marcos Antônio, 37, tem inspiração na banda multicolorida Restart. A algaravia do Centro nessa época do ano é velha conhecida do cearense. É impossível transitar na Guilherme Rocha sem bater com o joelho na quina da caixa de sapato que vai na sacola de alguma senhora e sem tropeçar depois de ficar olhando a estátua humana parada no miolo da Praça do Ferreira. É um tempo vivido sob o imperativo da balbúrdia, da pressa e da carreira desabalada. Mesmo assim, o cearense parece feliz. Maycon Pereira da Silva, 18, estava. O menino tinha apenas de esticar o braço e tirar da caixa um CD do Aviões. Apenas na quinta-feira, havia batido a marca de 140 discos vendidos sem esforço. Se estender a conta à semana passada, lá se vão 700 CDs negociados. E “amanhã é dia de vender 200.”, desafia-se. “E é só essa música”, diz, e põe para tocar novamente o refrão mais grudento desde o último e único sucesso do grupo Parangolé: “Vou não, quero não, posso não. Minha mulher não deixa não...” De acordo com o rapaz, o problema é apenas na hora de dormir. “É que fica azucrinando o juízo. O pessoal daqui já está até reclamando. Então, na rede, boto um reggae pra tentar esquecer um pouco.” Esquece? Não. No dia seguinte a novena é a mesma.
Fonte: O POVO Online.
Fonte: O POVO Online.